Gerês: do Soajo à Senhora da Peneda

Saímos de Braga diretos à vila do Soajo com uma visita aos Espigueiros, uma das maiores atrações turísticas da zona. Chamam-lhe a Eira Comunitária do Soajo, tem 24 espigueiros todos em pedra, que descansam sobre grandes rochas de granito, contemplando a serra. O mais antigo é datado de 1782. À conversa com um morador da vila, ele explicava que os “Canastros”, outro nome dado aos Espigueiros, são utilizados para secar o milho, o que  explica a sua localização e desenho. Ou seja, são colocados em sítios mais altos, para que os animais não acedam e comam o milho; a pedra é rasgada para o ar circular entre as espigas; e a cruz ou cruzes que têm no cimo revelam a devoção da população e um pedido especial de proteção divina. Não há como parar e falar com as pessoas locais. O quanto temos a aprender com elas. Em tom de exclamação, acrescentava: “mas há quase 100 Espigueiros em toda a zona, não são apenas estes!!”. Defensor acérrimo da sua terra, o senhor, já “homem de quatro filhos, três deles emigrados”, retorquia, em tom irritado: “o Parque Nacional devia chamar-se Peneda-Soajo-Gerês”. Segundo ele o Soajo foi a primeira freguesia a avalizar a criação do Parque Nacional… então por que razão o nome não consta!!!
De volta à estrada, o caminho levou-nos à Lagoa do Poço Negro.  A 1,5 Km da Vila, e de acesso fácil, este é mais um daqueles miminhos a que o Gerês já nos tem habituado. É uma das lagoas mais profundas (tem cerca de 5 metros profundidade). Talvez por isso, quando olhada de cima, pareça um buraco negro… lugar ideal para criação de estórias, mitos e lendas. Estou certa que haverá algumas!

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O caminho do Soajo em direção à Peneda é qualquer coisa. Viramos para Andrão, com paragem obrigatória no Miradouro do Vale da Peneda, para sentir a paisagem. De um lado, toda uma encosta verde rasgada pelo Rio, e do outro a gigantesca Peneda, agreste, beijada pelo Santuário da Nossa Senhora da Peneda.

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Descemos até à aldeia de Tibo. O objetivo era conhecer a Lagoa dos Druidas. O nome era sugestivo, mas o trilho estava fora das rotas habituais. Resultado, não encontramos a Lagoa, mas percorremos uma pequena parte do trilho da Mistura das Águas (um dos trilhos pedestres do Gerês), pelo rio da Peneda  em direção ao Encore de Lindoso. Um trilho lindíssimo com as suas rochas escarpadas, de vegetação quase virgem, acompanhado pelo som da água que corre lá ao fundo. Um trilho que conta histórias… a das rotas dos peregrinos para a Senhora da Peneda ou a dos contrabandistas.
Depois de uma hora a andar, o cansaço fez-nos parar onde a vegetação deu uma brecha. Pequenas quedas de água e pequenas piscinas de água cristalina convidaram a um mergulho refrescante. Um lugar meio esquecido, um lugar meio perdido, onde o descanso teve gosto a vida.

Pusemos pés ao caminho… a chegada ao Santuário da Nossa Senhora da Peneda soube a peregrinação, tal era o cansaço! Alguém escreveu, a Senhora da Peneda “fica na garganta de um monte”. Não podia haver expressão melhor para se referir à imagem que temos quando lá chegamos. A sua invulgaridade torna o Santuário “peça única”. Começamos a subir as primeiras escadas. Parecem cansadas do tempo… tanto quanto as pernas dos/as peregrinos/as que todos os anos rumam ao Santuário. Ele parece estar ali bem perto de nós… mas não… não fosse ele lugar de peregrinação, um Altar de Fé. Por isso convida-nos a contemplar. Receciona-nos no grande pórtico, onde nos convida a entrar. Conta-nos a vida de Cristo nas suas 20 capelas, estrategicamente dispostas numa alameda arborizada em escadório. Parece que nos está a dizer: a vida é bela, mas ela é exigente e pede força e resistência. E, no fim, sussurra-nos o segredo das virtudes, representadas por estátuas no no seu último escadório: Fé, Esperança, Caridade e Glória.

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O interior, colorido, pede permanência.

Mais um dia, outro trilho. Outro trilho, novas descobertas…

 


♥ Trilho feito em julho 2017

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