Uma varanda para a Pedra da Gávea, Rio de Janeiro

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Era Agosto de 2017. O trabalho tinha-me levado, mais uma vez, ao Brasil. De passagem, aquela paragem retemperadora no Rio de Janeiro. Três dias fantásticos feitos de visitas, passeios e samba, mas é sobre a Pedra da Gávea e a varanda de onde a vi, que esta foto nos conta.

Devem estar a pensar, mas não seria mais interessante falar no Corcovado, com o seu Cristo Redentor, que recorta os céus com a sua imagem imponente e memorável, sempre de braços abertos olhando por todos/as! Ou falar no Pão-de-Açucar e do seu ‘bondinho’ que, desde 1912, dá asas a quem o quer visitar, permitindo observar uma das paisagens mais belas do mundo! Ou até falar no Morro Dois Irmãos, que se avista da praia de Ipanema, e que enquadra pores-do-sol inesquecíveis. Sim, talvez fosse mais interessante… mas a verdade é que nem sempre nos apaixonamos pelo mais belo, mas pelo que instiga a nossa curiosidade. Foi o caso.

Suponho que a Pedra da Gávea tenha tido maior impacto em mim por me ter sido “apresentada” durante a visita que fiz à favela da Rocinha. Naquele momento os sentimentos eram antinómicos. Ao mesmo tempo que a Rocinha era uma janela aberta, com vista privilegiada, sob a Pedra da Gávea, estimulando deslumbramentos, ela obrigava ao confronto com as disparidades e as desigualdades sociais que compõem a favela, a maior favela da América Latina. Os sentimentos continuavam contraditórios, pois foi deste local, aparentemente feito de feiuras, que vi, ouvi e me fascinei pelas histórias, pelos mitos e pelas lendas da Pedra da Gávea. O entusiasmo das narrativas de César, um morador da Rocinha que nos acolheu em sua casa, transformou o Morro da Gávea num palco repleto de arrebatamentos e confabulações.

A Pedra da Gávea é um dos morros que marca a paisagem do Rio de Janeiro. Beija o céu pela sua altura, 844 metros, o que a torna uma das montanhas mais altas do mundo às margens do oceano. E ergue-se firme de entre a Floresta da Tijuca, com a sua vegetação nativa exuberante. Reza a história que o nome da montanha foi dado pelos marinheiros de uma expedição portuguesa, em 1502, que reconheceram, na silhueta da pedra, a forma do cesto da gávea. A gávea era o ponto mais elevado das antigas embarcação à vela onde se construía um cesto de observação – cesto da gávea – onde permanecia o marinheiro vigilante esperando por avistar terra. Na gíria dos barcos quinhentistas (portugueses e castelhanos) o cesto da gávea era também chamada de ‘caralho’. Parece que gritar “Terra à vista” se tornou o grito do ‘caralho’E quando alguém se portava mal, era mandado para o ‘caralho’. Ainda bem que os marinheiros, na hora de dar o nome à montanha, tiveram o bom senso de não usar a gíria.

A Pedra da Gávea olha-nos nos olhos, e fá-lo através da imagem de uma cara esculpida na rocha, cuja origem é muito controversa e debatida. A esta imagem, marcante, juntam-se lendas e contos. Umas sobre as inscrições na rocha, numa linguagem muito antiga, que muito acreditam ter origens sobrenaturais. Outras falam sobre grutas com cavernas longas que atravessam a Pedra da Gávea de “orelha a orelha”, ou até sobre a existência de um “portal”, que dizem ser a entrada para um mundo subterrâneo. Outras estórias, ainda, falam das trilhas, dificílimas, que mais parecem saídas do filme Salteadores da Arca Perdida, e que têm instigado lendas de maldição que são colocada sobre aqueles/as que ousam violar a tumba de um Rei Fenício, que terá passado por terras brasileiras em 856 a.c.

Histórias e mais estórias se constroem sobre a Pedra da Gávea. Não sei se são verdadeiras ou não, talvez isso nem seja o mais importante. O que sei é que a fixei, e senti o pulsar das suas entranhas. E daquela varanda, na favela de Rocinha, como marinheiro na Gávea, tive vontade de gritar “Terra à Vista”.

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