Amendoeiras em flor: roteiro de um dia

Adoro lendas… e a das Amendoeiras em Flor é ao estilo Taj-Mahal ♥ Reza a lenda que o jovem rei árabe Ibn-Almundim começou a cultivar amendoeiras para agraciar a sua princesa nórdica, saudosa da neve da sua terra Natal. Ele sabia que quando elas florescessem se iriam assemelhar a um manto de neve que cobre o horizonte, perfumando o ar. As amendoeiras em flor marcam o fim do inverno, anunciando a vinda da Primavera. Marcam o despertar da natureza e a renovação. Em regra, esta paisagem só pode ser vista durante as primeiras semanas de março, como se nos dissesse que a vida e a beleza passam rápido, por isso devem ser apreciadas e vividas no seu esplendor. O Japão tem a Sakura – Cerejeira em Flor – Portugal tem as Amendoeiras em Flor. Ambas profundamente enraizadas na cultura do seu povo. Como não visitar?

Apesar de a CP – Comboios de Portugal – organizar um programa especial dedicado às Amendoeiras em Flor, optamos por ir de carro. Para nós, uma das melhores formas de fazer este passeio, apreciar as cores e os cheiros, parar e conversar com as pessoas locais. Saímos (de Braga) em direção a Alfândega da Fé (192km), onde passamos a noite, e no dia seguinte iniciamos o nosso roteiro de um dia. Alfândega da Fé, Freixo de Espada à Cinta, Barca d’Alva, Castelo Rodrigo, Vila Nova de Foz Côa, Torre de Moncorvo e Vila Flor. 224 km de estrada pelo IC5,  a N221 e a N222. Este é o roteiro que queremos partilhar convosco. Sim, o roteiro… porque parte do nosso deslumbramento ficou nas paisagens que ligam as vilas.                               mapa rota amêndoeiras

A) Alfândega da Fé

Alfândega da Fé foi local de chegada. Ficamos alojados no Hotel & Spa Alfândega da Fé. Uma óptima escolha. Dizem que já conheceu melhores dias. Isso não sabemos. A recordação que trazemos é de um hotel que se debruça sobre o Vale da Vilariça e que nos brinda com uma vista única, estejamos nós nos quartos, no restaurante, na sala comum ou no SPA. Apesar do frio, não resistimos a experimentar o jacuzzi exterior, suspensos a 1100 metros de altitude, e à noite jantamos maravilhosamente no restaurante do hotel.

 

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B) De Alfândega a Freixo de Espada à Cinta

Saímos de Alfândega da Fé logo pela manhã. Até Freixo de Espada à Cinta tínhamos cerca 60 km pela frente. Era grande a expectativa. Mas os campos estavam ainda despidos da flor. A primavera tardava por ali… e as oliveiras eram as rainhas. As mudanças de clima fazem disto, exclamava o pastor. Mas esperançado, e acho que para nos dar algum alento, disse: _ para Castelo Rodrigo devem estar em flor!

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De Freixo de Espada à Cinta só sabíamos que era distante de tudo, e por isso foi uma surpresa. É conhecida como a “vila mais manuelina de Portugal”. E não pensem que isso é pouca coisa. O estilo Manuelino personifica um dos períodos arquitectónicos mais esplendorosos do país, marcado pela exuberância de formas e estilos decorativos (que apenas se encontram em Portugal). Passeamos pelas ruas, estreitas e silenciosas. Passamos pela igreja matriz, uma igreja quinhentista, delicada na sua arquitetura, “manuelina” nas portas e nas janelas. Paramos frente ao freixo de espada à cinta, com idade superior a quinhentos anos, uma “graça” da cidade. E visitamos a Torre do Galo, uma torre heptagonal, exemplar único, que fica sobranceira à igreja matriz. Esta torre é o que resta do antigo castelo, que foi deitado abaixo em 1830, por ter perdido a sua função defensiva. _Uma pena! diz o povo. O que outrora existia para defender a vida, hoje é guardiã dos mortos, no cemitério que guarda dentro das muralhas imaginadas.

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C) A caminho de Barca d’Alva

Não há como descrever a paisagem que liga Freixo de Espada à Cinta a Barca d’Alva. 20 km de beleza ímpar. Os montes e os vales parecem estar cobertos por uma manta de retalhos, de desenhos e texturas diferentes. Uns de desenho simples, quando a paisagem é um campo relvado. Outros acolchoados, pelo relevo das oliveiras, das amendoeiras já em flor e das ovelhas que se passeiam. Todos os retalhos, grandes e pequenos, cosidos com a delicadeza de quem borda.

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Barca D´Alva é uma pequena povoação situada num vale na margem esquerda do rio Douro no caminho entre Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo. Está integrada no Parque Natural do Douro Internacional, determinando o limite do Douro em território português. A sua pouca acessibilidade faz com que esta povoação pareça parada no tempo, tanto quanto a sua estação ferroviária, e linha férrea, hoje abandonada e vandalizada.  Passamos a ponte…                         IMG_0672

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Ponte Almirante Sarmento Rodrigues

A estação ferroviária de Barca D´Alva fazia parte do nosso imaginário, à boa maneira de Eça de Queiroz: “Era uma Estação muito socegada, muito varrida, com rosinhas brancas trepando pelas paredes”. Quanta história contém uma estação ferroviária inaugurada a 5 de Junho de 1886? Quantos sonhos encerraria uma linha transfronteiriça cheia de projetos avant-garde? Quantos fantasmas esconde o desinvestimento, o abandono e o encerramento da estação em 1987?                                 IMG_0697 copie

IMG_0704Seguimos em direção a Figueira de Castelo Rodrigo… queríamos chegar pela hora do almoço, mas já não seria possível. Não porque a distância fosse muita (cerca de 25 km), mas porque a cada curva, uma paragem, dezenas de fotografia, minutos de contemplação.

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D) Figueira de Castelo Rodrigo e a Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo

Chegamos a Figueira de Castelo Rodrigo, perto das 15h00. Ainda conseguimos almoçar no Restaurante A Cerca, mas o nosso olhar estava preso às velhas muralhas  que, lá do alto, saúdam quem chega. Era lá que queríamos ir, à Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo.

Uma aldeia que mantém a característica traça medieval, com um património histórico inestimável e que não nos deixa esquecer a sua identidade que, durante séculos, foi disputada entre Espanha e Portugal. Quando passeamos pelas ruas e visitamos as muralhas do castelo (construído em 1209), as ruínas do palácio de Cristóvão de Moura (edificado em 1590), o Pelourinho quinhentista, a cisterna medieval ou a igreja matriz (século XII/ XIII) protetora dos peregrinos compostelanos, percebemos a força das conquistas, das resistências e da coragem de um povo. O nome de Castelo Rodrigo foi , durante séculos, elevado bem alto.

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Antes de irmos embora, paramos na loja e salão de Chá Sabores do Castelo e deliciamo-nos com uma prova “livre” de amêndoas revestidas de uma variedade de sabores, para todos os gostos e paladares. De chocolate, coco, sementes de sésamo, caril, especiarias, lavanda… vá até onde a sua imaginação a/o levar. Na realidade, o verdadeiro sabor está mesmo na amêndoa… que é deliciosa.                                               IMG_0799As  Amendoeiras em Flor presentearam-nos à chegada e à saída de Castelo Rodrigo. O pastor sempre tinha razão!!

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E) Um saltinho até Foz Côa

A próxima paragem era Vila Nova de Foz Côa. Em rigor, queríamos ter visitado o Parque Arqueológico do Vale do Côa, um museu ao ar livre com pinturas rupestres da época do Paleolítico. Uma daquelas visitas obrigatórias. Mas como não fizemos o trabalho de casa, não sabíamos que as visitas só decorrem em grupos acompanhadas com guias do Museu do Côa ou com agentes autorizados, previamente agendadas. Terá de ficar para a próxima.

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Solar de Visconde de Almendra, séc. XVIII, Almendra

O Parque Arqueológico do Vale do Côa fica na freguesia de Castelo Melhor e, por isso, aproveitamos para visitar esta povoação que tem um dos castelos mais antigos de Portugal, datado do século XII ou XIII. Há quem diga que neste castelo estão encerrados mistérios históricos e arqueológicos ainda por desvendar, e que nos poderão levar a épocas ainda mais recuadas. O Castelo coroa o monte e teve um papel fundamental na defesa das terras de Ribacôa. É considerada uma das ruínas medievais de carácter militar mais impressionantes e menos adulterada. Tem vistas únicas!

F) Torre de Moncorvo

Seguimos diretamente para Torre de Moncorvo. 20 km de estrada. Paramos na vila e demos um pequeno passeio a pé pelo centro histórico que nos deu uma perspetiva do núcleo medieval que o compõe. A Igreja Matriz de Torre de Moncorvo, que está classificada como Património Nacional; o chafariz Filipino, de 1636, na praça central; o Museu do Ferro, que já estava fechado à hora que chegamos; as casas solarengas e as várias lojas de venda de produtos regionais e de confeção da amêndoa coberta, que decoram as pequenas ruas da vila.                           IMG_0868 copie

G) A caminho de Vila Flor

O roteiro estava a terminar. 25 km separavam Torre de Moncorvo de Vila Flor. Mais uma vez, o caminho foi-nos surpreendendo. Chegamos ao pôr-do-sol, e apesar de não termos ficado muito tempo na Vila, foi possível perceber por que é que D. Dinis, em 1286, se rendeu aos encantos e beleza da sua paisagem e lhe deu o nome que tem hoje, Vila Flor.

Fomos recebidos pela Rainha Santa Isabel que, formosa, embeleza a praça principal da Vila, cercada das rosas que tanto a caracterizam. “São rosas, meu senhor, são rosas!”… não há como não ouvir.

IMG_0913 copieA praça é lugar de encontro. De um lado, a Igreja de São Bartolomeu, Igreja Matriz de Vila Flor, de estilo barroco com uns portais profusamente decorados, e o Pelourinho datado dos séculos XVII e XVIII. Ambos classificados como Imóveis de Interesse Público. Do outro, uma Vila Flor mais moderna, onde está o edifício da Câmara Municipal, localizado numa zona mais elevada da vila, com a fachada virada para o centro, como se a proteger o seu povo.

A noite pôs-se, o frio apertou, a chuva mostrou-se incontinente. Estava na hora de regressar. Não vimos o “manto de neve” da lenda, mas regressamos de coração cheio de tanta beleza que o nosso país nos reserva.

Foi o roteiro de um dia. Muitas coisas ficaram por ver, mas o que vimos valeu a pena!

 

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