Centro Portugal

O Entrudo de Lazarim: “o único local onde o diabo é bonito”

Carnaval

Uma vez por ano os holofotes estão apontados para a freguesia de Lazarim, que fica a 12 quilómetros da cidade de Lamego. Com pouco mais de 500 habitantes recenseados, transborda pelas costuras na altura do Carnaval, ou melhor, do Entrudo, como os habitantes lhe preferem chamar. Na rota do turismo cultural e das raízes, o Entrudo de Lazarim conserva-se fiel a si próprio.

Fomos a Lazarim com vontade de descoberta. O dia estava cinzento, mas a folia estava toda lá. O Entrudo de Lazarim é festeiro, maldizente e picante … “ó entrudo ó entrudo… chocalheiro”.

[Um pouco de história] O Entrudo de Lazarim é considerado um dos mais tradicionais de Portugal e os seus festejos têm uma história tão antiga que poucos se atrevem a adivinhar as suas origens. Sabe-se que o Estado Novo não o encorajava, por ser um ritual pagão de conotações subversivas, mas também não o conseguiu erradicar. Hoje atrai centenas de forasteiros, mas a clandestinidade das suas vivências sente-se até aos dias hoje. É durante a madrugada que se ouve o maço a bater no formão que esculpe a madeira das máscaras, que são o ex-libris deste Entrudo.

[as máscaras e os artesãos] Demónios, figuras grotescas com fisionomias zoomórficas ou bruxas, preferencialmente com cornos bicudos e despidas de pinturas, são as máscaras típicas do Entrudo de Lazarim. Máscaras de madeira de amieiro (uma árvore ripícola que nasce nas margens do rio Varosa) esculpidas por artesãos da freguesia que registam simbolicamente, nas suas máscaras, o seu imaginário e universo cultural. Não há nenhuma máscara igual à outra e não há ‘rendilhado’ que não tenha direito de autor reconhecido.

“Cada um de nós tem uma assinatura”, dizia-nos José Cabral, um dos artesãos com quem conversamos. Com grande entusiasmo na voz, contava-nos, com pormenor, como (se) dá vida àquela pedaço de madeira inerte. Uma máscara média pode durar 1 semana a fazer e podem ter um preço que varia de 150€ a 600€. Depende da máscara e da “assinatura”! Exclama. Em pequeno aprendeu a arte com os mais velhos da aldeia e nunca mais parou. É como uma herança genética, que se entranha na alma. A festa é organizada pelas gentes da terra e, por baixo das máscaras, os populares dissimulam a sua identidade. Dizem que já serviu para ajustes de contas, afinal, e como tão bem dizia Vergílio Ferreira, “que ideia a de que no carnaval as pessoas se mascaram. No carnaval desmascaram-se”. 👹👺👿

[os caretos] Se a máscara é a pulsão da terra, os caretos são a sua personificação (os caretos representam personagens masculinas, enquanto as figuras femininas são chamadas de senhoritas). Homens e mulheres usam as máscaras, vestindo fatos feitos de palha, barbas de milho, folhas secas, trapos velhos… e chocalhos. “Diabos à solta” que chocalham atrevidamente quem anda pelas ruas, quem assiste aos cortejos etnográficos ou arrisca um olhar. É Carnaval, ninguém leva a mal! Correm, dançam, urram ou circulam em silêncio. Sem cordões de segurança, abrem os cordões à bolsa da liberdade. Improvisam. Divertem-se. Fazem poses para os flashes dos paparazzis em que todos nos tornamos naquele dia.

Para saber mais sobre as máscaras é obrigatória uma visita ao Centro Interpretativo da Máscara Ibérica (CIMI), que pode ser visitado em Lazarim, e que tem como principal objetivo a valorização, promoção e divulgação deste património cultural que é a máscara e os seus rituais. Conta com uma exposição de trajes, máscaras e objetos das mascaradas invernais e entrudos de Portugal e Espanha. Foi aqui que estivemos à conversa com Nuno Loureiro, filho da terra, e um dos organizadores do Entrudo de Lazarim desse ano. Falou sobre o programa das festas mas, acima de tudo, e com “aquele brilhozinho nos olhos”, falou-nos sobre as tradições.

[o programa] As festas começam no sábado antes do dia de Carnaval. De sábado a terça feira a aldeia enche-se de atividades de promoção da Máscara e dos caretos, como o raid fotográfico, o encontro com os artesãos e o desfile etnográfico de carnaval, com grupos de caretos de Lazarim, grupos de caretos convidados e grupos tradicionais da terra. Um fartote de divertimento. Nas bancas dispostas pela rua vendem-se os doces típicos. O doce teixeira, os beijinhos, as cavacas ou o pão de ló. Haja barriga para uma barrigada de doces.

A terça-feira é o momento alto das festividades. O cortejo é pejado de secretismos, afinal o número de mascarados e as máscaras que vão circular nas ruas são sempre uma incógnita em cada Entrudo. Depois do cortejo há a Leitura dos testamentos da Comadre e do Compadre. Manda a tradição que, durante o ano, os rapazes se reúnam em segredo para escreverem o testamento das raparigas e que elas façam o mesmo relativamente a eles. Na Terça-Feira Gorda, representantes dos rapazes e das raparigas sobem à parte alta da vila e lêem o testamento que “põe tudo a nu”. Um texto escrito em tom de sátira, brejeiro, incisivo, vingativo, que até coraria Gil Vicente. Lengalengas maldizentes… mas cuidado… não vá o feitiço virar-se contra o feiticeiro, porque para o ano há mais. No final, os bonecos da comadre e do compadre são queimados e Lazarim despede-se da festa oferecendo aos presentes uma feijoada e sopa de farinha, acompanhados por enchidos de porco, broa e vinho, que foram cozinhados em enormes caldeirões de ferro, aquecidos a lenha.

Fotografia cedida por Nuno Loureiro

O Carnaval é isto mesmo, um momento de transição e de renovação social, uma espécie de libertação catártica que vence simbolicamente o sagrado, a ordem, as hierarquias instituídas e a opressão. É deste beijo entre o profano e o sagrado, os diabos e os anjos, que se alimenta o carnaval. “Amanhã já somos todos santos”, diziam-nos em Lazarim, “o único local onde o diabo é bonito”.

E assim regressamos a casa, marcados pela intensidade desta tradição e rendidos a este colo gigante que são as raízes de um povo. Não há folia sem descanso, nem diabos sem anjos, por isso, pelo sim pelo não, antes de regressarmos, visitamos o Santuário da Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego. Não vá não haver remédio para o sentimento profano da folia.

E olha que Lamego é capaz de te surpreender, fica a dica!

Vista para o Santuário da Nossa Senhora dos Remédios, Lamego.

– Passeio realizado em março de 2019
– Fotografia de Marcelo Andrade @iremviagem
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5 comentários em “O Entrudo de Lazarim: “o único local onde o diabo é bonito”

  1. Aqui transpira-se cultura! Muito bom de ver. Beijinhos

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  2. Almeida Loureiro Nuno Miguel

    Excelente texto e um obrigado do tamanho do mundo, pela ajuda na divulgação do nosso Entrudo
    Cumprimentos
    Nuno Loureiro

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  3. Isa Pinheiro

    Como foi o transporte para lazarim e a hospedagem em LAMEGO? Alguma dica? Parabéns pelo texto! Isa

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