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Vila Nova de Cerveira: uma vila com assinatura

Vila Nova de Cerveira é uma vila raiana do distrito de Viana do Castelo, no Norte de Portugal. É limitado geograficamente por Valença, Paredes de Coura, Ponte de Lima, Caminha e a Galiza (Espanha).

Esta vila minhota tem “selo de qualidade” sem precisar de o pedir. A vila é pequena, mas sem complexos de inferioridade. Bem pelo contrário. Joga alto nas artes e é inspiração para uns tantos artistas que a procuram pela sua tranquilidade e pacatez. Tem o charme dos seus solares e casas senhoriais do séc. XVI e XVII, que decoram a paisagem e marcam, ainda, o estilo e o padrão social da vila. Tem fortalezas desativadas, porque optou pela “ponte da amizade” com Nuestros Hermanos que enchem as suas ruas ao fim de semana e fazem pulular a economia local. Tem uma moldura natural incrível, os montes pelas costas, com fantásticos miradouros, e o rio aos pés. O generoso Rio Minho, que deu nome à recente Ecopista que o acompanha e que faz as alegrias de miúdos e graúdos. Vila Nova de Cerveira mantém um Minho genuíno e bem conservado. Senta-te à mesa e vais perceber o que isso significa!

Visitamos Vila Nova de Cerveira de 29 a 31 de maio. Estando ainda dentro do plano faseado de desconfinamento, tivemos algumas limitações na nossa visita, principalmente no acesso aos espaços culturais e museológicos da vila, que estavam fechados (e..g Fórum de Cultura, AquaMuseu, Convento de San Payo…). Coincidiu, também, com a reabertura da feira semanal, mas como as fronteiras estavam fechadas a afluência e a dinâmica estava aquém do que é habitual.

Partilhamos com vocês algumas razões para visitarem Vila Nova de Cerveira.

Conteúdos:

1. É um “livro de História”
2. Tem marca e assinatura: “Cerveira, Vila das Artes”
3. Podes tocar o céu nos seus miradouros
4. Acolhe com ternura a Ecopista de Minho
5. Dá-se a descansos demorados no Parque de Merendas do Castelinho
6. Tem passeios no Rio Minho
7. Tem feira e folia
8. Onde (gostamos de) ficar
9. Onde comer: sugestões

1. É UM “LIVRO DE HISTÓRIA”

A presença humana no território remonta à pré-história, mas é aquando do processo de reconquista, após as invasões árabes, que se autonomiza o Condado Portucalense (1096) e o rio Minho passa a assumir um papel de fronteira importante. Surgiam assim as Terras de Cerveira, com castelo e fortaleza, para defesa da fronteira. Era a sina das terras raianas.

Castelo D. Dinis

O centro histórico de Vila Nova de Cerveira remonta ao século XIV, com a entrega da Carta de Foral de D. Dinis em 1321. Por isso, não se estranha que a história e o património andem de mãos dadas, oferecendo, a quem a visita, uma mão cheia de riqueza. Num espaço tão pequeno concentra castelo, fortaleza, pelourinho, capelas e igrejas, praças, solares e casas senhoriais. Azulejos coloridos e brasões. Quem faz o roteiro histórico e passeia pelas suas ruas empedradas convive na harmonia do antigo com o moderno, que em nada parecem rivalizar. A nossa alma inquieta encosta-se e recosta-se na descoberta de locais como este, feito de curvas inesperadas e paredes falantes. O que é que merece um olhar mais atento?

  • O Castelo D. Dinis e a sua Fortaleza – datado de 1229, o Castelo surge como marca na paisagem da vila. Lá dentro pode visitar a Igreja da Misericórdia (reconstruída no século XIX), a Capela de Nossa Senhora da Ajuda (1650) e o Pelourinho (1547). Foi parcialmente transformado na Pousada de D. Dinis mas está, neste momento encerrado para remodelação.
  • Percorrer a Via Sacra pelas ruas do centro histórico.
  • Solar dos Castros – foi originalmente construída em 1640, mas adquiriu o seu aspeto atual no século XVIII. Foi adquirido pelo Estado Português em 1972 e é hoje a Biblioteca Municipal. Tem uns jardins lindíssimos que merecem a nossa visita e contemplação.

Centro histórico
Solar dos Castros – Biblioteca Municipal
  • Igreja Matriz – está situada no centro da vila, na Praça da Liberdade. Data do século XVI, mas foi reconstruída em 1877. É de estilo neoclássico com uma fachada barroca.
  • Solares e Casas Senhoriais – destaca-se a “Casa Verde”, que é um palacete do século XIX. É conhecida pela sua fachada de azulejos verde que se distinguem na paisagem da zona central da vila histórica.
Igreja Matriz
Largo e “Memória”
Casa Verde
  • Forte e Aro Arqueológico de Lovelhe – é formado por um amplo conjunto patrimonial que inclui a Fortaleza, mas também um vasto conjunto de ruínas arqueológicas que têm vindo a ser intervencionadas desde a década de 80.
  • Forte de Atalaia – Hoje, abandonado e engolido pela vegetação, este forte foi edificado durante as Guerras da Restauração e tinha como missão vigiar o rio e a estrada para Valença.
Forte de Lovelhe com vista sobre a “Ponte da Amizade”
Forte de Atalaia. Localização – Estrada da Senhora da Encarnação

Pelas ruas do centro histórico, a marca dos Caminhos de Santiago. Algures no séc. XV, os peregrinos buscavam assistência no hospital instituído pela Santa e Real Casa da Misericórdia, no interior do Castelo. Hoje, Vila Nova de Cerveira é passagem do Caminho Português da Costa, que parte do Porto e passa pelos concelhos de Matosinhos, Maia, Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Esposende, Viana do Castelo, Caminha, Vila Nova de Cerveira e Valença, pela orla marítima. Todos os dias, as ruas da vila enchem-se de peregrinos, que procuram descanso e lazer.

2. Tem marca e assinatura: “Cerveira, Vila das Artes”

Vila Nova de Cerveira é natureza, história e património, mas o que a torna especial é a cumplicidade de tudo isto com a arte. Em Cerveira respira-se Arte e Liberdade. Os sinais culturais estão espalhados por cada canto da vila, decorada de instalações, esculturas artísticas e murais (Roteiro das Artes), em muito por obra do Mestre José Rodrigues, que se enraizou em Vila Nova de Cerveira e disse aos seus amigos “traz outro amigo também”.

Mural “Lacunas da Memória”, em homenagem a José Rodrigues, de Elton Hipólito. Edifício do CineTeatro
O Mural das “três Marias” pela “liberdade de expressão”, de Elton Hipólito. Em 1971, as escritoras Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa escreveram a obra Novas Cartas Portuguesas onde falavam da discriminação contra a mulher em Portugal. Foram acusadas pelo Estado português de terem escrito um livro que atentava a moral pública e os bons costumes

O apreço pela arte e pela cultura faz de Cerveira uma referência, ao acolher, desde 1978, uma das mais conceituadas Bienais Internacionais de Arte – Bienal Internacional de Arte de Cerveira. Acho que D. Dinis, o rei poeta e trovador, ficaria orgulhoso da vila que fundou.

3. Podes tocar o céu nos seus miradouros

Os miradouros são quase sempre lugares especiais. Não porque nos põem no alto, mas porque nos mostram o quanto somos pequenos perto da imensidão do que se avista. Em Vila Nova de Cerveira há três miradouros que destacamos aqui. São de fácil acesso e ficam todos na estrada curvilínea da Senhora da Encarnação.

O primeiro miradouro é o do Espírito Santo. Da vila vê-se umas portas lá no alto. Alguém nos diz que são as “portas do céu”. Como resistir! Fomos em passo acelerado, não vá o pecado da gula (dos cerveirenses que comemos) proibir a entrada no céu ???? A meia encosta da Serra da Gávea, a escassos dez minutos do centro histórico de Vila Nova de Cerveira, ergue-se o portal da capela do Espírito Santo, nunca concluída, que dá uma beleza singular a este miradouro. Nas ruínas da capela que dão nova silhueta à serra, brindamos à vida… afinal não é todos os dias que tocamos o céu.

Miradouro do do Espírito Santo

O segundo miradouro é o da Senhora da Encarnação que fica junto a um parque de merendas com vistas largas sobre a vila e o rio Minho, uma “porta aberta à natureza”.

Miradouro da Senhora da Encarnação

O terceiro, e mais emblemático, é o Miradouro do Cervo, que está localizado junto à escultura do Cervo, uma das obras da autoria do escultor José Rodrigues. Bastam 300 metros de altitude para te surpreenderes com uma vista imponente. O que vês? O Homem e a natureza em diálogos (com)prometidos. Vês o rio Minho a pedir licença para entrar no mar, enquanto saúda as ilhas da Boega e dos Amores que o decoram com a sua orla de vegetação verde. Vês as vilas portuguesas e espanholas, unidas pela Ponte da Amizade. Vês as Serras de Arga e de Góis, e os e Montes de Santa Tecla e de Nossa Senhora da Encarnação, onde estás! Podes ver um por-do-sol de suster a respiração. Para isso, senta-te numa das pedras e espera… vais entender porquê!

Se vieste até aqui, continua mais um pouco em direção ao Mosteiro de São Payo. Vais passar pela Lagoa do Cervo, que se esconde timidamente por entre a vegetação, e depois as vistas ampliam-se e tens a sensação de que estás mais perto do céu. O Mosteiro é um daqueles tesouros escondidos e guarda um museu com o espólio e obra do escultor José Rodrigues. O Convento de San Payo oferece também alojamento rural.

Lagoa do Cervo

4. Acolhe com ternura a Ecopista de Minho

A Ecopista do Minho é uma surpresa das boas. Um projeto com pedal, mas a precisar de mais pedalada (de quem a visita e de quem a promove). Tem cerca de 40 quilómetros de extensão, enquadrada numa zona verde, segura e tranquila, que beija o Rio Minho sempre que ele deixa. Percorre os concelhos de Monção, Valença, Vila Nova de Cerveira, com trabalhos em curso para a ligar ao concelho de Caminha. Esta Ecopista, de percurso plano, está destinada a passeios pedonais e de bicicleta (principalmente) e está equipada com bebedouros, sanitários, zonas de descanso e parques de merendas. O que a transforma numa “via verde” que pode ser percorrida ao ritmo (lento) das águas do rio, que lhe faz companhia.

Ecopista do Minho

Nós fizemos parte da Ecopista ‘Caminho do Rio’, em Vila Nova de Cerveira, que tem uma extensão de 13,5 quilómetros. Alugamos duas bicicletas na @olavidacerveira iniciamos o nosso passeio no Parque de Lazer do Castelinho em direção a Valença. Perdemos a noção das horas e o tempo, quando estamos em harmonia com a natureza, parece que se deforma, contrai e flui. Paramos para ouvir o silêncio da natureza e para conversar com os pescadores, que mantêm viva uma das atividades ancestrais no Rio Minho. Se merenda houvesse, tínhamos parado no Parque de Lazer da Lenta e dado um mergulho na sua pequena praia fluvial. A cada pedalada a certeza que os momentos felizes somos nós que os alcançamos, nas coisas simples. Por isso, continua a pedalar…

5. Dá-se a descansos demorados no Parque de Lazer dos Castelinhos

Dêem-nos uma relva verdinha, com vista rio, e sombras naturais e nós “compramos”. O Parque do Castelinho é uma zona de lazer a cinco minutos do centro histórico, junto ao rio Minho e atravessado pela Ecopista ‘Caminho do Rio’, onde se pode usufruir de várias atividades ao ar livre. Está equipado de campo de jogos e de mini-golfe, parque infantil e aquático e ainda equipamento para praticar exercício físico.

Parque de Lazer dos Castelinhos

Pode visitar, também, o Aquamuseu do Rio Minho, que está em funcionamento desde Julho de 2005, e pretende recriar todo o percurso do rio Minho, desde a nascente até à foz, das suas espécies, das tradições e das atividades que lhe estão associadas.

6. Tem passeios no Rio Minho

Com emoção ou sem emoção? No @olavidacerveira, uma agência de animação turística em Vila Nova de Cerveira, a resposta só depende de ti. Podes aluguer bicicletas e trikes para percorrer a Ecopista do Minho. Se fores mais aventureiro/a, podes sempre explorar a serra e os seus segredos num dos passeios de jipe que eles promovem. Mas se és de aventuras aquáticas, então o rio Minho e o rio Coura recebem-te de braços abertos. Podes “caminhar sobre as águas” no stand up paddle; descer o rio de caiaque, e com sorte terás lontras a marcar o ritmo do remo; ou fazer um passeio de barco no rio Minho, num barco eletro-solar, 100% ecológico, que respeita o habitat-natural das tantas aves e peixes que fazem do rio Minho um santuário.

Fizemos o cruzeiro das ilhas, que tem a duração aproximada de 50 minutos. Na ondulação das palavras do Sr. Agostinho, fomos conhecendo um pouco mais da vila, do rio e das ilhas da boega e dos amores. Na ondulação vagarosa do rio Minho, fomos percebendo o slogan da Olá Vida “experiências que valem sorrisos”. E ficamos por ali a namorar tudo com os olhos.


7. Tem Feira e folia

Ao sábado há sempre a Feira Semanal que atrai centenas de pessoas. Mais de 250 feirantes, num espaço amplo, a curta distância do centro histórico. No mesmo espaço ouvem-se sotaques e línguas diferentes. Galegos e minhotos cruzam-se em plena harmonia, entre cuecas, calçado ou loiças de casa. É uma das feiras mais concorridas da região e vale a visita porque nela sente-se o pulsar da terra.

Como tem uma forte ligação com as artes, oferece um extenso programa cultural. Encontros de Teatro, Festa do Livro e da Leitura, o Dancerveira – Festival Internacional de Dança de Vila Nova de Cerveira, Cerveira Acústica, Festival Internacional de Folclore – “O Mundo a Dançar”, Bienal Internacional de Arte de Cerveira, Festa da História, Na’tal Cerveira, Noite Velha no Castelo.

8. Onde (gostamos de) ficar

Em Vila Nova de Cerveira ficamos duas noites na @acasadocervo , que entrou diretamente para a nossa lista dos “alojamentos que não se esquecem”. Porquê? Porque mexeu alegremente com todos os nossos sentidos. Tens uma casa só para ti, situada mesmo no centro histórico da vila, bem junto ao castelo. Quando entras, uma decoração leve e delicada marca o ambiente, arrematada com pequenos pormenores decorativos que trazem à casa a identidade da terra que está na escolha do nome. E cheira bem… adoro casas que são “aromaterapias”. Em cima do balcão da cozinha, uma garrafa de vinho e uns biscoitos de milho, típicos da região. Uma cortesia da Paula Viana, proprietária da Casa do Cervo, que dá (a) alma ao alojamento. De manhã, depois de uma noite descansada entre lençóis brancos de algodão, abres a janela e vês os jardins da biblioteca, que estão enquadrados num cenário de montanha. Espreguiças-te mais um pouco… afinal os pássaros continuam a chilrear lá fora. Com filhos ou sem filhos vais querer entrar no outro quarto, de tão mimoso que é. Pegas na chave e sais para passear pela vila, mas já deixas o vinho a refrescar… afinal, ao final do dia, espera-te o melhor dos cenários. Uma porta que te dá acesso privado a um terraço, encostado ao castelo, onde brindas, de copo cheio, à maestria de saber viver (n)as coisas pequenas.

9. Onde comer: sugestões

  • Para comer umas tapas diferentes, num ambiente de boa disposição, recomendamos o Curt’isso (no centro histórico).
  • O Colher de Pau é um espaço mimoso de doces e petiscos.
  • Para cozinha tradicional portuguesa, com o requinte de ser uma “janela” sobre o rio Minho têm a Casa do Lau.
  • Para comer o melhor cerveirense (doce típico feito de massa folhada, recheado com doce de chila, uns pedacinhos de amêndoa e um toque de canela) só na Pastelaria de São Pedro, no centro histórico.

Vila Nova de Cerveira é, sem dúvida, um sítio para voltar.


Detalhes
Visita realizada em maio de 2020
Marcelo Andrade @iremviagem
Agradecimentos

Paula Viana, da Casa do Cervo

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Comentários

  • 6 de Julho, 2020

    De tão bem escrita e documentada, deu vontade de fazer a mochila e ir para lá.
    Obrigada por nos darem a conhecer as maravilhas de Portugal.

    Responder

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