Serra da Estrela e Covilhã: pela rota da neve e da lã

O destino era Piodão. Mas estávamos em janeiro, a Serra da Estrela estava branquinha. Como não aproveitar!! Tínhamos apenas dois dias. Começamos, então, a pesquisar o melhor itinerário de ida e volta, a analisar as distâncias, a procurar alojamento e a perceber os gastos (ver Dicas úteis). Desenhamos o trajeto – Serra da Estrela – Covilhã – Piodão.

Saímos bem cedo. Tínhamos cerca de 250 km pela frente até chegar à Serra da Estrela. A  A25 foi percorrida de coração apertado. Quilómetros e quilómetros de mata ardida. De uma paisagem árida e desoladora, onde outrora fora verde e vida. Uma paisagem que nos acompanhou até ao Parque Natural da Serra da Estrela. Só mesmo o manto branco da neve para nos fazer esquecer. A Serra da Estrela é a montanha mais alta de Portugal, com uma altitude máxima de 1993 metros, atingidos na zona da Torre. Os desníveis montanhosos dão-lhe uma beleza inigualável. A neve é a cereja no topo do bolo’. Frio, silêncio, natureza. O tempo pára.

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A primeira paragem foi em Seia. Um café, um pastel de nata de requeijão e um passeio pelo centro, estávamos prontos para começar a subir a Serra. Percorrendo uma estrada sinuosa que serpenteia a montanha, a subida foi feita de paragens, sempre que a paisagem convidava. Até chegar à Torre fizemos três paragens. Primeiro na Aldeia do Sabugueiro, a aldeia mais alta e uma das mais antigas e remotas do país (existe desde o ano 1296). Depois, ao virar de uma curva, na Lagoa Seca. Uma Lagoa que espelha o céu. Que vaidoso, ele, que todos os dias se olha ao espelho. Mais à frente, na Lagoa Comprida, ou melhor, na barragem da Lagoa Comprida. Dizem que tem trilhos  e descobertas maravilhosas. Aqui o deslumbre não se faz à chegada, mas quando subimos o paredão e ficamos ao nível da barragem. Uma imensidão de água, comprimida pelas margens rochosas. O trilho é pedregoso, mas que a neve torna plano e escorregadio. Por isso, a cada passo uma gargalhada. O frio impõe-se, mas é ele que dá uma beleza única a este lugar.

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Lagoa Seca
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Barragem da Lagoa Comprida

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Chegamos à Torre pela hora do almoço. É o ponto mais alto da Serra da Estrela e também de Portugal Continental. Lá em cima, a hora é de diversão, sempre com emoção. Seja na Estância de Ski, para os mais audazes (que não foi o nosso caso), seja no aluguer de trenós. Os risos ecoam pela serra. Adultos e crianças constroem bonecos de neve e atiram bolas de neve uns aos outros. Como são bons estes regressos à infância, em que o tempo parece não ter tempo, e a rigidez do dia-a-dia se dilui. Apesar de haver, no local, um restaurante e lojas com produtos típicos da região, a nossa opção foi almoçar no carro a merenda que levamos, virados para o manto de neve branco que cobre o alto da serra.

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Torre

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Descendo a Serra em direção à Covilhã, passamos pelas Penhas da Saúde. Situadas a cerca 1500 metros de altitude, esta aldeia parece uma pintura emoldurada pela Serra da Estrela. “Ar puro e paz de espírito é o grande atributo desta localidade”, dizem! Acreditamos. Para nós, que só por lá passamos, foi a construção e os chalets de montanha que lhe conferiram uma identidade muito própria.

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Penhas da Saúde, Covilhã

A chegada à Covilhã fez-se pela tarde. Pousamos as mochilas no hotel (ver Dicas úteis) e saímos para conhecer a cidade. Na receção do hotel deram-nos um mapa e algumas sugestões de visita. O tempo ameaçava chuva, tínhamos de nos apressar.

Por onde começar? Optamos por iniciar a visita pelo percurso da arte urbana  (ver Covilhã é Arte Urbana), mas não faltam percursos sugeridos pela própria Autarquia (ver aqui). Mesmo ao lado do Edifício da Camara Municipal adentramos as ruelas do centro histórico, um património secular cheio de memórias e contextos históricos, que se cruza com a modernidade estética. Logo acima, a Igreja de Santa Maria. Uma paragem obrigatória. Uma igreja quinhentista de uma beleza inconfundível, vestida de azulejos de cor azul e branca. Nas ruas, muitos jovens, a contrariar a interioridade da cidade. Sem dúvida a Universidade da Beira Interior (UBI) veio trazer novo folgo à cidade.

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É no romance entre a neve e a lã que a cidade da Covilhã se tem reconstruído ao longo dos tempos. A Serra da Estrela, que outrora colocou a cidade em plena Rota da Transumância dos pastores, hoje traz-lhe o turismo. A indústria dos lanifícios que foi a principal atividade da economia local, em declínio desde a década de 80, é hoje fonte de inspiração e ressignificação da cidade pela arte urbana e pelo design de moda, utilizando o burel produzido com as lãs locais.  Aliás, a paisagem “industrializada” que enfeiava a cidade está em plena mudança, pela aposta que tem sido feita na recuperação do património industrial da arquitectura da cidade, e da ligação entre as ribeiras de Goldra e da Carpinteira, através de pontes pedonais. A cidade está muito diferente de há 20 anos, quando lá fui pela primeira vez.

Neste investimento, os Funiculares e os Elevadores passaram a fazer parte da paisagem da Covilhã. Parte expressiva do Plano de Mobilidade Pedonal da cidade, são de utilização gratuita, e todos eles têm uma cabine panorâmica. Obra inteligente, que nos faz ficar com a cidade na retina. Saindo da zona antiga começamos a caminhar em direção à Universidade. Primeiro o Funicular de Santo André, depois o Elevador da Goldra, que nos liga ao campus e ao Museu de Lanifícios da Universidade. O Elevador do Jardim e a Ponte sob a Ribeira da Carpinteira ficaram para o dia seguinte. Era janeiro, a noite levanta-se cedo e o corpo pedia comida e descanso (ver Dicas úteis). Parados no semáforo, já em direção ao hotel, somos interpelados por um senhor, da idade da cidade: _ Já foram visitar o relógio do sol nas Portas do Sol? Têm de lá ir? E explicou pormenorizadamente o caminho que tínhamos de tomar. E relembra: _ E ainda têm a arte urbana, lá onde a vista do nascer do sol é a mais bonita. E lá fomos nós, surpreendermo-nos mais um pouco.

A manhã acordou nublada. Mas não podíamos ir embora sem visitar a Ponte sobre a Ribeira da Carpinteira. Uma das maiores pontes pedonais em Portugal – 52 m de altura, 220 m de comprimento e 4,40 m de largura – criada pelo arquitecto João Luís Carrilho da Graça. Um trabalho impressionante, que justifica as imensas distinções e prémios que tem recebido quer nacional, quer internacionalmente. Uma ponte que religa o passado ao presente. Ao ser construída sobre o vale da Carpinteira permite a observação das fachadas das fábricas de lã, hoje vazias. Pela geometria do seu desenho, não nos deixa esquecer as alturas e os desníveis da Serra da Estrela, que se apresenta às portas da cidade. Uma “ponte sexy”, apelidava-a o seu criador.

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Ponte sobre a Ribeira da Carpinteira, Covilhã

Para quem sai do centro da cidade, o acesso à ponte faz-se pelo Elevador do Jardim (Público). O dia estava nublado e, por isso, o Elevador foi-se desvelando aos poucos. Quando chegamos ao primeiro elevador, mais parecia que tínhamos encontrado as portas do céu, e a entrada no elevador uma espécie de salto de fé! São dois elevadores verticais instalados em duas torres de betão e vidro de 17 e 24 metros, respetivamente. Só lá em baixo, olhando para cima, nos apercebemos da grandiosidade da obra. Não deu para ver a vista panorâmica, mas o que vimos foi suficiente para não esquecer!

Da Covilhã seguimos para Piodão… mas esta é outra história ♥

 


§ Dicas úteis

  • Como ir: Para decidir o itinerário utilizamos o Via Michelin. Rapidamente nos dá várias opções de trajetos, distâncias em quilómetros e gastos (portagens e combustível).
  • Alojamento: Para o alojamento, a pesquisa foi feita no Booking.com. Ficamos no Hotel Sol Neve. A escolha do hotel para pernoitar teve por base dois principais critérios: estar no centro da cidade, para nos permitir mobilidade a pé; e ter um preço em conta, afinal só queríamos um sítio para dormir. Mas ficou-nos no olho o Hotel Puralã. Talvez numa próxima visita!!
  • Onde comer:  Antes de irmos espreitamos as sugestões do TripAdvisor e quando chegamos escolhemos as sugestões da terra. Jantar na Taberna A Laranjinha.

 


link-symbol_icon-icons.com_56927 Veja também:

4 comentários Adicione o seu

  1. Alan Martins disse:

    Paisagens muito belas, os cenários são incríveis. Adoraria visitar um local assim, enfrentar esse frio. A aventura deve ser gratificante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Alan, obrigada pelo teu comentário e por gostares do nosso post. O Parque Natural da Serra da Estrela é lindo, e com neve torna-se maravilhoso. Uma visita que vale mesmo a pena!! 😉

      Curtido por 1 pessoa

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